yamabushiO Budismo Esotérico representou uma forte influência nas artes marciais antigas do Japão, denominadas Bujutsu (“Técnicas Marciais”). Embora muitos releguem grande importância ao Zen nas artes marciais japonesas, a popularidade dessa filosofia foi extremamente restrita até a Restauração Meiji (1867), quando começaram a surgir os primeiros vislumbres da transformação do Bujutsu em Budô. Líder maior deste movimento, Jigoro Kano foi um dos primeiros a adotar a filosofia Zen em seu Dojô, sendo depois seguido por outros estilos, principalmente o Karatê de Funakoshi, e mais recentemente o Shorinji Kempo através de uma nova linhagem denominada Gongo Zen.

As influências maiores do Bujutsu, que conta com pelo menos 800 anos de história, se deram através do Shintoísmo antigo e do Budismo Esotérico, este representado pelas escolas Tendai e Shingon. Sem sombra de dúvida o Budismo Shingon é a mais forte influência do Bujutsu, tendo extendido seus ensinamentos desde o Tenshin Shoden Katori até o Aikidô. Vamos analisar a origem desse movimento e sua repercussão nas artes marciais.

Budismo Esotérico

Dentre as variadas formas de Budismo nascidas na Índia, a linha esotérica (Vajrayana) foi a última a se estabelecer. Fruto da união dos ensinamentos budistas com o Tantra e técnicas yôgues, o Budismo Esotérico se desenvolveu por volta do ano 400 de nossa era. Foi exportado para o Tibete onde exerceu decisiva influência no que foi depois chamado de Budismo Tibetano. Muita dessa influência se extendeu até a China, sendo devidamente ensinado por Vajrabodhi, monge indiano que se radicou no Leste da China por volta de 700 d.C. Ao contrário de seus antecessores, Vajrabodhi dominava bem a língua chinesa e suas traduções de sutras foram peças valiosas na afirmação do Budismo Esotérico na China (chamado de Ch’en Yen – “Palavra Verdadeira”). Com a invasão muçulmana na Índia no século XII, o Budismo, incluindo o ramo esotérico, desapareceu daquele país. Muitos de seus textos hoje existem apenas em traduções tibetanas e chinesas.

O Budismo Esotérico penetrou no Japão onde se mesclou com o Shintoísmo primitivo e gerou o Shugendo (“Caminho dos Poderes”), uma prática ascética utilizada pelos Yamabushi, os guerreiros das montanhas, e praticantes de espada de diversas escolas.

Kukai – O Estudioso

Enquanto isso (774) no Japão nascia Kukai, filho de um abastado casal de comerciantes. Desde criança tomou gosto pelos estudos clássico, principalmente com um tio que era especialista nas obras de Confúcio, filósofo que exerceu grande influência nos costumes e na cultura japonesa daquela época. Kukai foi estudar na universidade da capital, facilidade reservada aos mais ricos e nobres. Durante seus estudos clássicos conheceu um velho Mestre de Budismo Esotérico puro, uma raridade na época, que passou a instruí-lo. Dizem que esse Mestre ofereceu a Kukai a possibilidade de desenvolver um tipo de poder mental, à sua escolha. Kukai escolheu o Poder do Raciocínio e da Memória. Com isso se tornou o mais brilhante de todos os estudantes de sua época, dominando não apenas os textos clássicos mas também o chinês e o sânscrito. Logo percebeu que o conhecimento existente no Japão de então não era suficiente para ele. Partiu para a China em busca do autêntico Budismo Esotérico e chegou a tempo de conhecer Hui Ko, o último patriarca chinês dessa linha. Muito velho, Hui Ko se alegrou ao perceber que Kukai poderia ser seu sucessor e ensinou tudo o que podia a ele, vindo a falecer três meses depois. Seu discípulo voltou ao Japão disposto a divulgar a nova escola filosófica, Shingon (“Ch’en Yen” em japonês). Seu colega de viagem, Saicho, que havia estudado Budismo Esotérico Tien Tai na China, criou a escola Tendai. Por muito tempo ambos ensinaram sob o mesmo teto até que se separaram e tomaram seus próprios caminhos.

O Budismo Shingon foi oficializado em 809 pela corte imperial de Kyoto. Kukai morreu em 835, deixando uma fantástica obra de templos, mosteiros e muitos seguidores. O Imperador concedeu-lhe póstumamente o título de “Kobo Daishi”, o Grande Mestre da Propagação do Dharma.

Budismo Esotérico e Artes Marciais

Profundamente carregado pelas técnicas milenares do Yôga e do Tantra, o Budismo Esotérico se baseia na idéia de que todas as criaturas do mundo possuem a natureza búdica dentro de si, devendo apenas liberá-la. Para os adeptos dessa escola, quando alguém atinge a iluminação está apenas começando a ver realmente algo que sempre existiu mas que estava encoberto pelo véu da ignorância. Seu texto principal é o Sutra Mahavairocana (Dainichikyo, em japonês) e possui muitas técnicas esotéricas como os Mudrás (gestos simbólicos), Mantras (sons especiais), Mandalas (desenhos que despertam a consciência), visualização, meditação e exercícios para despertar poderes latentes (Siddhis, em sânscrito).

Sua forte influência nas artes marciais se fêz sentir até na Tenshin Shoden Katori, a mais antiga e tradicional escola de Bujutsu do Japão, sediada em um templo Shintoísta, o Tenshin. Suas técnicas de espada escondem Mudrás e Mantras em seus movimentos, características que apenas os adeptos aceitos dessa escola conhecem.

Mesmo Morihei Ueshiba teria vivido por algum tempo em um templo Shingon e aprendido diversas técnicas esotéricas, entre elas as técnicas dos sons (denominado “Kotodama” no Shintoísmo).

As mais antigas escolas de Jujutsu do Japão (Daito-Ryu e Takeuchi-Ryu – século XVI) mostraram grande respeito e avidez pelas técnicas mentais e pelos poderes que poderiam ser despertados pelo Budismo Esotérico. Delas o Daito-Ryu se consagrou pelas técnicas circulares utilizando o poder do Ki, tendo posteriormente sido aperfeiçoado com o conceito esotérico de Aiki.

Respiração e Ki são técnicas fundamentais no Budismo Esotérico e encontrados em grande quantidade nos ensinamentos do antigo Bujutsu. Esses fatores, somados às técnicas poderosas de controle mental e corporal, forjaram o cerne do conhecimento marcial da classe guerreira, os Samurais.

O grupo que mais se aprofundou nas técnicas esotéricas budistas foi o dos Ninjas. Mestres nas artes místicas, seus feitos passaram à história do Japão. Seus movimentos manuais com os dedos, denominados Kuji-Kiri, nada mais são do que avançados Mudrás. Suas técnicas respiratórias e de controle corporal e mental estão entre as mais avançadas praticadas no Japão. Esse conhecimento, todavia, se originou de um budismo esotérico mais antigo, da seita Shugendo mencionada anteriormente. Acredita-se que os Yamabushi (também denominados Shugen-Ja) foram os ancestrais dos Ninjas. Eles se especializaram nas técnicas Mikkyo, maneira como os japoneses chamam o Budismo Esotérico.

O Patriarca das Artes Marciais Japonesas

fudomyoAssim como os chineses tem Kwan Kun como o patriarca das artes marciais, os japoneses também possuem o seu: Fudo Myo.

Fudo Myo é uma deidade do Budismo Shingon, chamado de Acara Vidyârâja em sânscrito, representado como um guerreiro com uma espada na mão direita e um rolo de corda na esquerda. A espada representa a sabedoria, que corta a ignorância; a corda representa o controle sobre as emoções e paixões violentas, que as amarra e as mantêm controladas pelo consciente. A sabedoria de Fudo Myo é a da liderança através do auto-controle. Todos que se dedicam ou se dedicaram às artes marciais japonesas sabem do valor dado ao auto-controle e ao esforço do praticante para se aperfeiçoar. Essas são as virtudes inspiradas por Fudo Myo.

As artes marciais são extremamente ricas em conteúdo, às vezes muito pouco explorado pelos praticantes. Se aprofundar nesse caminho não apenas leva à maestria nas artes marciais, mas também no auto-aperfeiçoamento do praticante e sua melhora corporal, mental e espiritual. E essa é a verdadeira meta de todas as artes marciais.

 

 

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientais desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, além da cultura oriental e artes marciais.

site: www.laoshan.com.br

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