Jigoro KanoA história das artes marciais é algo extremamente fascinante. Tentar penetrar em eras remotas e procurar descobrir o que sentia ou pensava um Mestre de outra época é uma tarefa difícil mas gratificante. Pode-se descobrir tesouros incríveis e revelar mitos absurdos gerados pela falta de informações. O Judô é um dos alvos desses mitos. O mais comum no Brasil, divulgado por alguns adeptos de Jiu-Jitsu, é de que o Judô seria uma "cortina de fumaça" usada pelos japoneses para encobrir sua verdadeira arte marcial, o Jujutsu, de olhos ocidentais. Essa afirmação carece de qualquer base sólida e só pode ter sido obra da ignorância de algum desavisado. Acredito que esse texto possa lançar alguma luz sobre esse período extremamente turbulento das artes marciais japonesas.

 

 

O Apagar das Luzes
jujutsuCorria o final do século XIX no Japão. Em 1868 houve a Restauração Meiji, com o retorno do poder ao imperador. Com o fim da classe feudal dos senhores da guerra, a utilização de guerreiros particulares caiu em declínio em prol de um exército unificado, com influência militar do Ocidente. Em 1871 um decreto imperial abolia o uso das duas espadas, símbolo máximo dos Samurais. Isso causou uma comoção nacional. Muitos Samurais praticaram o seppuku, a morte ritual (incorretamente chamada de hara-kiri no Ocidente), enquanto outros se tornaram artesãos, pescadores ou comerciantes. Mas uns poucos não conseguiram abandonar as artes marciais.

O Jujutsu possui uma origem que também suscita muitos mitos praticados no Brasil, mas vamos nos ocupar da origem dessa arte, com detalhes, em outro texto. Nesse momento, basta que se saiba que artes com mãos vazias, ancestrais do Jujutsu, são praticadas no Japão desde aproximadamente o ano de 1180, sendo que a sistematização e a difusão dessa arte em vários estilos só se iniciou à partir do século XVI. As artes de mãos vazias, praticadas pelos guerreiros, era chamada genericamente de kumiuchi.

Na época do decreto que aboliu as espadas, muitas escolas de artes marciais não agüentaram a falta de alunos e fecharam. Incontáveis estilos que existiam naquela época (alguns autores mencionam cerca de 400 estilos, embora vários sejam similares, mudando apenas o nome) desapareceram, levando consigo preciosos segredos das artes marciais. Mas o antigo estava definitivamente fora de moda, pois a população buscava freneticamente os costumes e tecnologias do Ocidente, particularmente a Europa.

Em meio à essa onda avassaladora, sem trabalho e com sua arte desacreditada, muitos experts em Jujutsu se meteram em brigas de rua e arruaças, denegrindo o bom nome da arte. Logo o têrmo "jujutsu" era sinônimo de baderneiro e encrenqueiro. Muitos mestres juntavam seus adeptos em turmas e lançavam desafios abertos, organizando lutas remuneradas, que geravam combates encarniçados pela "supremacia" técnica. Nesse quadro caótico, onde as raízes estruturais das artes marciais japonesas estavam abaladas e ameaçavam ruir, surge um homem com uma visão diferente, moderna, embora dotado do saber ancestral: Jigoro Kano.

Começa o Judô
Jigoro Kano nasceu em Kikage, próximo de Kobe, em 28 de outubro de 1860, de família abastada. Em 1871, ano da proibição das armas, Kano e sua família se mudaram para Tóquio. Aos 18 anos, aluno da Universidade Imperial de Tóquio, Jigoro Kano começou a treinar o Jujutsu, atraído pela perspectiva de que um homem frágil pudesse derrubar um gigante (ele media 1,54m). 

judo kano2Pelo declínio da arte, foi muito difícil encontrar um Mestre de Jujutsu com conhecimentos que satisfizessem o inteligente jovem. Começou a treinar com Teinosuke Yagi, cujo estilo nos é desconhecido. Depois estudou com Hachinosuke Fukuda e Masatomo Iso, da escola Tenshin Shinyo Ryu. Aprendeu também o Kito Ryu com o Mestre Tsunetoshi Iikubo, tendo atingido os maiores segredos desses dois estilos.

Em 1882 Kano abriu seu próprio Dojô, chamado Kodokan, onde ensinava uma variação moderna do Jujutsu que ele chamava Judô. A mudança do nome se devia ao fato de que Mestre Kano não queria que sua arte tivesse a conotação negativa conferida aos praticantes de Jujutsu, pois considerava repugnante a prostituição das artes marciais através de combates remunerados e desafios. Além disso a palavra "Do", caminho, era mais adequada aos seus objetivos: fazer do Judô um caminho, uma prática saudável para o corpo e para a mente e possível de ser praticado por homens e mulheres de qualquer idade. Em sua época era freqüente o número de acidentes sérios durante os treinos de Jujutsu. Jigoro Kano afirmou ainda que o têrmo escolhido, "judô", não havia sido criado por ele, mas era muito antigo, sendo utilizado pela escola Jikishin Ryu. Para diferenciar a sua arte ele a denominava "Kodokan Judô", nome pela qual ainda é conhecida.

Mestre Kano era um gênio das artes marciais. Seu desempenho foi tão extraordinário que Mestre Iikubo deu-lhe todos os livros e manuscritos ancestrais contendo os segredos do Kito Ryu. Embora dominasse pelo menos dois estilos, Mestre Kano nunca parou de aprender. Mantinha no conselho do Kodokan alguns dos melhores Mestres de Jujutsu de seu tempo, os quais forneciam a ele manuscritos e pergaminhos sobre suas técnicas mais ocultas. Como um inovador, Mestre Kano estava sempre procurando conhecimentos novos. Ao assistir uma demonstração de Karatê de Mestre Funakoshi, convidou-o a dar algumas aulas no Kodokan. Acabaram por se tornar grandes amigos e Kano convenceu Funakoshi a permanecer ensinando no Japão. Por causa disso o Karatê se difundiu e cresceu muito nesse país, passando daí para o resto do mundo. Ao saber da existência do Aikidô, assistiu uma aula do Mestre Ueshiba e ficou fascinado. "Esse é o Budô que eu gostaria que o Judô se tornasse", mencionou mais tarde a um aluno. Pouco tempo depois enviou alguns de seus alunos, entre eles Kenji Tomiki, para aprender Aikidô. Este acabou por criar uma variante, chamada "Tomiki Aikidô", que possui competições à exemplo do Judô.

As técnicas mortais do Jujutsu foram transformadas em técnicas mais leves, suaves e divertidas de aprender. A obtenção de uma boa forma física foi enfatizada e a parte esportiva foi criada. Mestre Kano também desenvolveu o primeiro sistema de faixas de graduação, chamando de Kyu aos graus dos aprendizes e de Dan aos graduados. Esse sistema não existia no Japão anteriormente ao Judô. Baseado nas roupas marciais tradicionais ele desenhou um blusão forte e resistente e calças largas, para facilitar a "pegada" e os movimentos corporais. Nascia o que hoje se conhece popularmente como "kimono".

Por que "Judô"?
Segundo o próprio Mestre Kano, enquanto ele estudava Jujutsu percebeu que essa arte seria um treinamento excepcional para a mente e para o corpo, devendo ser disseminada por todo o mundo. Mas o antigo Jujutsu não havia sido desenvolvido para a educação física e mental, para o desenvolvimento intelectual e moral, muito menos ao nível pretendido por Mestre Kano. Para essa missão era necessário uma arte mais refinada, com conceitos mais modernos. Ao mesmo tempo ele não queria inventar um nome totalmente novo, pois a sua arte era baseada em conhecimentos ancestrais, os quais ele procurava conservar da deterioração geral. Além de ser formado por técnicas de Jujutsu especialmente selecionadas, o Judô incluía técnicas de luta Greco-Romana ocidental e metodologias de treinamento científicas, baseadas numa nova disciplina que crescia muito na Europa naquela época: a Educação Física.

Quando o Kodokan foi aberto, possuía nove alunos e sua área media 12 tatames, medida japonesa que usa o tamanho dos tatames. Cada tatame media aproximadamente 1,98 m2. No 70º aniversário do Kodokan, este possuía 500 tatames e seus adeptos somavam milhões por todo o mundo. Mas nem tudo foram flores no caminho ascendente do Judô.

1886, A Prova Final
A subida vertiginosa do Judô na preferência da população criou muitas rivalidades. Mestres de Jujutsu desafiavam o Kodokan quase diariamente, alegando que Kano havia deturpado a sua arte e acrescentado elementos estrangeiros. Para fazer frente a essas ameaças, o jovem Kodokan possuía um time de primeira, composto por antigos Mestres de Jujutsu que haviam se juntado ao Mestre Kano. Entre esses, quatro se destacavam: Tsunejiro Tomita, Sakujiro Yokoyama, Yoshikazu Yamashita e Shiro Saigo, chamados de Shitenno, "Os Quatro Senhores Celestiais", verdadeiros guerreiros que carregavam o nome do Kodokan em combates ferozes. Destes, o mais célebre era sem dúvida Shiro Saigo. Filho adotivo do Grande Mestre Tanomo Saigo, líder do Daito-Ryu Aikijujutsu, ele acabou rompendo com o Aikijujutsu para se juntar a Kano, revelando-se um dos melhores lutadores que o Japão já viu.

Em 1886 a Polícia Metropolitana de Tóquio realizou uma competição para escolher o sistema marcial que seria utilizado pela polícia. Representantes de Jujutsu, Kenjutsu e de diversos outros estilos de artes marciais se apresentaram para os combates. Entre eles estava o grupo do Mestre Hikosuke Totsuka, do Totsuka-Ha Yoshin Ryu, feroz adversário do Kodokan. Mestre Totsuka era considerado o maior Mestre de Jujutsu do último shogunato, anterior à Restauração Meiji. Mas todas as atenções se concentravam nos representantes do pequeno Dojô inaugurado a apenas quatro anos.

No dia 11 de junho de 1886, no santuário Yayoi, os combates finalmente se desenrolaram. Lembramos que nessa época não havia ainda as regras competitivas, sendo cada combate uma luta total até que um deles não pudesse continuar. Tomita e Yamashita venceram suas lutas, enquanto Yokoyama empatava numa luta histórica que levou 55 minutos, sem pausa. Dos "Quatro Senhores Celestiais", faltava ainda Shiro Saigo. Ele enfrentou Entaro Ukiji, do Totsuka-Ha Shinto Ryu, um verdadeiro gigante frente ao diminuto Saigo. Quando a luta se iniciou, Saigo foi agarrado pelo kimono e lançado no ar. Para espanto da multidão, deu um giro completo e caiu em pé. Ele então agarrou Ukiji e o desequilibrou, girando-o num pequeno círculo. Era o lendário Yama Arashi ("Vento da Montanha"). Este era um golpe que somente Shiro Saigo conseguiu realizar perfeitamente e que segundo alguns autores era derivado do Aikijujutsu, sendo sua marca registrada. Seu oponente aterrissou com um estalo nas costas. Não satisfeito, levantou-se tonto e tentou atacar novamente Saigo, que terminou o serviço.

Dos 15 combates disputados, o Kodokan venceu 12 lutas, empatou uma e perdeu 2. Essa aprovação pública foi o impulso que o Judô necessitava para galgar os altos degraus que a ele estavam destinados.

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientals desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, bem como estudioso de filosofia e história das artes marciais.

site: www.laoshan.com.br 

 

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