cultura oriental nas artes marciaisTodo praticante de arte marcial que provenha do Oriente conhece uma ou outra manifestação cultural do país de origem de sua arte. Ao menos alguns termos da língua oriental são assimilados por serem usados para designar movimentos, técnicas ou princípios. Algumas comemorações, manifestações artísticas e princípios filosóficos são igualmente pesquisados, porém mais como mera curiosidade do que como objeto de estudo real. Infelizmente essa é a nossa realidade brasileira.

Artes marciais são uma parte bastante significativa do legado cultural das civilizações orientais. Muito de seu pensar e agir e sua arte repousam na mesma base comum que nossas artes marciais, verdadeiro cadinho onde se fundiram expressões culturais dos mais diversos pontos do Oriente. Não se concebe uma civilização japonesa, por exemplo, sem o pensamento e atitude dos guerreiros feudais, os célebres Samurais, cujas marcas calaram fundo na cultura nipônica até nossos dias.

Diferente de nossa civilização ocidental, as artes marciais sempre estiveram muito difundidas e presentes no cotidiano dos povos orientais. Uma explicação plausível para isso poderia ser a manutenção das velhas técnicas de guerra até os princípios do século XX. Com efeito, até a Rebelião dos Boxers (1900) as forças armadas chinesas ainda utilizavam quase exclusivamente facões, espadas e lanças em seu arsenal, além das técnicas marciais de combate corpo a corpo herdadas de seu passado milenar. Isso difere bastante da civilização ocidental que adotou armas de fogo desde os séculos XV e XVI e separou a ciência militar da sociedade civil. Por isso é comum e normal falar sobre Wushu com um chinês ou Budô com um japonês, enquanto que falar de forças armadas com um ocidental esbarra numa parede entre a ignorância total sobre o assunto e um forte preconceito. Isso também parece explicar o fato de que as artes marciais orientais chegaram ao Ocidente travestidas de "esporte". Realmente, se analisarmos mais a fundo veremos que não existe classificação possível para artes marciais dentro da cultura ocidental! Esporte? Filosofia? Terapia? "Atividade física", como parecem gostar os chefes da Educação Física no Brasil? Não, as artes marciais representam tudo isso e muito mais, numa dimensão que não pode ser abarcada pelo pensamento cartesiano ocidental.

Isso motiva vários praticantes ocidentais a menosprezar a cultura oriental de origem dessas artes em prol do que é mais visível e concreto: técnicas físicas e esportivas. Muitos professores de Karatê mal sabem contar até dez em japonês… Um conhecido meu que é inclusive reconhecido como mestre em Kung Fu, disse certa vez que não era necessário saber chinês para estudar o Kung Fu e que isso era uma lorota que havia sido inventada pelos próprios chineses. Ora, executar um Kati copiando os movimentos do seu professor não requer nenhum conhecimento adicional. Mas a que nível se pode chegar sem compreender os termos e princípios de sua arte? A própria palavra "Qi" possui uma série de possíveis interpretações, dependendo da atividade exercida. O que dizer de "Kung" e "Jing", por exemplo? Não creio que seja necessário se tornar fluente em qualquer idioma oriental, mas uma compreensão básica de alguns ideogramas e conceitos podem expandir consideravelmente o domínio de uma arte, pois mais importante do que saber fazer é saber por que fazer! Do mesmo modo nas artes japonesas: Kiai, Kime, Maai, Mushin, etc… são princípios que devem ser conhecidos através da língua, em primeiro lugar. "Sensei", por exemplo, é traduzido normalmente como "professor" e equivocadamente como "mestre". Literalmente, "Sensei" significa "nascido antes". Uma pérola do pensamento oriental, pois antes de ser formado ou certificado, o "Sensei" tem que ser experiente, vivido, possuir uma gama de conhecimentos vasta e profunda para poder transmití-las aos "mais jovens" ou "nascidos depois". Assim o respeito ao Sensei deve ser o mesmo dado aos mais velhos.

O cumprimento japonês, flexionando o corpo para a frente, vem do tempo dos Samurais. Ao proceder assim perante outros, a pessoa se oferece em sacrifício, expondo a parte de trás do pescoço, habitualmente utilizada pelos carrascos, e se colocando à mercê da outra pessoa. Isso denota respeito e confiança, pois quanto maior a hierarquia da pessoa a que nos dirgimos, maior a curvatura do cumprimento.

Pode-se compreender muitos aspectos das artes marciais se nos detivermos para estudar sua cultura. Isso nos possibilita analisar uma determinada arte marcial dentro de seu contexto cultural e histórico.

Os japoneses delineiam três níveis de desenvolvimento: Gei, Jutsu e Do. Gei é a habilidade física, que qualquer malabarista ou até mesmo macacos adestrados podem fazer; Jutsu é a técnica mais refinada, fortemente analisada sob princípios filosóficos e científicos; Do é a etapa mais avançada, onde os princípios da arte transcendem a mera atuação marcial e passam a ser parte do indivíduo, caracterizando suas ações e pensamentos e transformando-se em sua filosofia de vida.

 

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientals desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, bem como estudioso de filosofia e história das artes marciais.

site: www.laoshan.com.br

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