Liberdade. Essa parece ser a bandeira levantada por BruceLeeBruce Lee. Sua famosa frase “use apenas o que for útil” ecoa em diversas academias pelo mundo todo. Vários estilos foram criados seguindo, teoricamente, a sua filosofia. Mas em que consistia essa “liberdade”? Vamos conhecer um pouco mais de seu pensamento e da arte que desenvolveu, o Jeet Kune Do, neste ano em que se comemora seu 75º aniversário.

Liberdade Marcial

Bruce acreditava que o ser humano é muito maior do que estilos e tradições. Com base nisso, professava uma individualização das artes marciais: cada praticante deveria utilizar o que fosse mais adaptável ao seu corpo e à sua filosofia. Mas isso já ocorre em quase todas as artes marciais. Depois de muitos anos afiando suas armas e mergulhando em sua filosofia, o artista marcial se torna gradualmente livre. Essa noção de liberdade pregada por Bruce Lee não é então exatamente uma novidade. Mas Lee foi o primeiro a expor essa realidade à todos os artistas marciais do Ocidente. Antes dele, os praticantes ocidentais se limitavam a seguir as rotinas de treinamento clássicas e ignoravam suas próprias necessidades, pois os Mestres orientais raramente dizem onde o treinamento deve chegar. Eles esperam que o praticante descubra sozinho, o que raramente acontece entre ocidentais. Depois de Bruce Lee, as pessoas passaram a perceber que a arte é feita por pessoas e não apenas por regras. Após dominar os conceitos e características de sua arte marcial, o praticante deve procurar seu próprio caminho, utilizando apenas o que funcionar melhor para ele.

Mas houve muitos enganos nessa mensagem. Muitos praticantes, até hoje em dia, treinam poucos anos ou mesmo alguns meses em algumas artes marciais e se metem a criar a sua própria arte! Acham que estão “absorvendo o que é útil” através da mistura de estilos que possuem, às vezes, características conflitantes. Pegam o “melhor” do Karatê, Judô, Jiu Jitsu, Kung Fu e Taekwondo, arrumam um nome qualquer, desde que soe como oriental, às vezes juntando sílabas das artes utilizadas (no nosso exemplo, Kajujiukuntae) ou misturando japonês e chinês numa mesma frase, por exemplo “Kung Do”. Pronto! Nasceu mais uma arte marcial, armadilha certa para crianças cujos pais nada sabem de artes marciais ou pessoas de boa vontade mas ingenuidade acentuada. Com certeza não era isso que Bruce Lee tinha em mente.

Jeet Kune Do

danebruceDan Inosanto nos conta em sua obra "Jeet Kune Do - The Art and Philosophy of Bruce Lee", que o nome do estilo nasceu numa viagem de carro que ele fez com Bruce Lee no início de 1968. Eles conversavam sobre a esgrima ocidental, uma das paixões de Bruce. Ele dizia que o mais eficiente meio de contra-ataque na esgrima era o arresto, movimento no qual o defensor atinge o atacante antes que este termine o movimento de ataque, sem que seja necessário uma defesa. É um movimento realizado em um só tempo, bem ao gosto de um praticante de Wing Chum.

Nesse momento Bruce disse: "Nós poderíamos chamar nosso método de 'Estilo do Arresto do Punho' ou 'Estilo Interceptando o Punho'”.Dan Inosanto perguntou: "Como seria isso em chinês?" E Bruce respondeu: "Jeet Kune Do". Assim, Jeet Kune Do seria o "Caminho de se Parar o Punho" ou "Caminho de se Interceptar o Punho". Ao invés de bloquear o golpe e contra-atacar, o objetivo principal seria dispensar o bloqueio e interceptar o ataque, atingindo o atacante.

Inosanto afirma que até 1967 o método era chamado de "Jun Fan Gung Fu", uma modificação de várias técnicas de Louva-a-Deus do Norte e do Sul, Choy Lay Fut, Garra de Águia, Boxe ocidental, Hung Gar, Boxe Thai, Luta-Livre, Judo, Jiujitsu e vários estilos do Norte da China, sendo que o núcleo principal era, naturalmente, o Wing Chun. Alguns anos depois Bruce Lee se arrependeu de ter dado um nome para o seu método, pois ele sentiu que isso era uma limitação, como disse posteriormente: "Não existe algo como um estilo, se você compreende totalmente as raízes do combate". Como Bruce usava muito de abreviações em seu método, tornou-se natural que sua arte passasse a ser conhecida como JKD. Entre eles, esse termo passou a ser usado para significar algo muito bom, excepcional: "Aquela comida é realmente JKD!", "O filme que eu vi ontem era JKD!", "Aquela garota é JKD".

Existe muita divergência sobre o que seria realmente JKD. Alguns praticantes, como Paul Vunak, o definem como um conjunto de conceitos e ferramentas qua habilitariam qualquer um a utilizá-los em seu próprio estilo. Outros, como Ted Wong, acreditam que o JKD é um estilo de arte marcial próprio, que deve ser transmitido exatamente como Bruce ensinou. Outros ainda, como Dan Inosanto, pregam que o JKD deve evoluir com o passar do tempo e se adaptar ao estilo do praticante (Bruce usava o JKD com o Wing Chun, enquanto Inosanto o utiliza com o Kali).

Fica difícil dizer o que é o que. Por isso vamos mostrar aqui alguns pensamentos de Bruce Lee e alguns conceitos do Jeet Kune Do. E como ele mesmo afirmava, a conclusão final deve ser exclusivamente sua.

 

O TAO do Jeet Kune Do

“O caminho fácil é geralmente o melhor caminho”BruceLee2

“O verdadeiro Kung Fu não é um acréscimo diário, mas um decréscimo diário. Ser sábio, para o Kung Fu, não significa adicionar mais, mas ser capaz de retirar as ornamentações e ser simples, como um escultor fazendo uma estátua, não pela adição mas pela eliminação do que não é essencial de modo que a verdade seja revelada de forma desobstruída”

“A arte necessita da completa maestria da técnica, desenvolvida pela reflexão na alma”

Conhecimento é fixo no tempo, enquanto conhecer é contínuo. Conhecimento vem de uma fonte, de um acúmulo, de uma conclusão, enquanto o ato de conhecer é um movimento.”

“Para compreender o combate, deve-se se aproximar dele de uma maneira muito simples e direta.”

“Sensibilidade do corpo (body feel) sugere um relacionamento harmonioso entre corpo e espírito, ambos inseparáveis.”

“Uma boa forma física é a maneira mais eficiente de atingir o propósito de uma boa performance com um mínimo de perda de movimento e energia.”

“Muitas vezes não é quão rápido o golpe viaja o que conta, mas quão breve ele chega no alvo.”

“O giro de quadril é o modo mais fácil e rápido de aprender, sendo usado como base para se ensinar a arte de golpear.”

Timing é muito mais eficiente quando o oponente se precipita em sua direção.”

“A manutenção de uma correta distância de combate tem um peso decisivo no resultado de um combate – adquira esse hábito!”

“O correto estilo em combate é aquele que, de maneira absolutamente natural, combina velocidade e poder de golpes com a defesa mais sólida.”

 

CONCEITOS

As Três Facetas do Jeet Kune Do

  1. Não-Clássico: não existem posturas clássicas, nem seqüências de técnicas pré-estabelecidas, nem trabalho pré-arranjado em duplas e nem ritmos de combate. Ao contrário, a arte é mais viva e se utiliza do Ritmo Quebrado.
  2. Objetividade: Não existem defesas passivas. O bloqueio é considerado uma das mais ineficientes técnicas. Se um golpe for lançado, reaje-se a ele de forma espontânea e natural, procurando interceptá-lo.
  3. Simplicidade: Sem aparatos espalhafatosos. Um soco é um soco, um chute é um chute. É melhor saber dez técnicas que funcionem por inteiro do que mil pela metade.

 

Cinco Caminhos de Ataque

SDA (Single Direct Atttack) –Ataque Simples Direto

Simplesmente acerte o oponente. É a forma mais simples dos métodos de ataque. Exemplos: o Jab e o chute com a perna da frente.

ABC (Attack By Combination)- Ataque por Combinação

É uma extensão natural do SDA. Você desfere diversos ataques em seqüência, onde um ou mais acabam acertando o alvo. Exemplos: Chute Frontal-Chute Circular ou Jab-Cruzado-Gancho.

HIA (Hand Imobilization Attack) – Ataque por Imobilização de Mão

Enquanto ataca, você agarra um ou mais membros do oponente, impedindo-o de executar contra-golpes ou defesas. Exemplos: várias técnicas utilizadas pelo Wing Chun.

ABD (Attack By Drawing) – Ataque por Esboço

Nesse ataque você leva o oponente a abrir suas defesas por meio de uma armadilha, fazendo-o acreditar que está aberto a um golpe e contra-atacando quando ele esboçar o ataque.

PIA (Progressive Indirect Attack) – Ataque Progressivo Indireto

É considerado a forma mais sofisticada de ataque. Elabora-se uma finta contra um ou mais alvos, atacando o seu objetivo real sem terminar o golpe anterior .

 

Quatro Alcances Primários

Alcance de Chute: é a distância na qual seu pé pode tocar o oponente mas as mãos não o alcançam.

Alcance de Soco: é a distância onde a sua mão frontal pode tocar o oponente dando-se um meio passo à frente.

Alcance de Armadilha (Trapping): é a distância na qual todas as suas armas podem ser utilizadas para golpear o oponente (chutes, socos, cotovelo, joelho, cabeça, etc..). É a distância na qual o oponente pode ser imobilizado e ter seus golpes desviados.

Alcance de Agarramento (Grappling): essa distância se sobrepõe à anterior. Pode ser dividida em agarramento em pé e no chão. Nesse alcance se utilizam as troções, apresamentos, arremessos e chaves.

 

Ritmo Quebrado

As artes marciais normalmente se utilizam de um determinado ritmo de combate: defesa-ataque-esquiva-ataque ou ataque-esquiva-defesa-contra-ataque. Essa movimentação em 1-2-3 era considerado viciante por Bruce. Ele acreditava que quebrar esse ritmo levava o oponente “clássico” a se atrapalhar. Bruce aumentava e diminuía a distância e alterava aleatória e continuamente seus ângulos de combate de modo a não gerar um ritmo que pudesse ser seguido por seu oponente.

 

Princípios Gerais

  • Ataque e defesa simultâneos
  • Uso eficiente da mecânica corporal (mais força com menos energia)
  • A arma mais longa contra o alvo mais próximo
  • Análise e aperfeiçoamento da velocidade de todas as técnicas
  • Compreender a correta progressão das distâncias de combate (chute, soco, armadilha e depois agarramento)
  • Aceitar a realidade antes de treinar para ela
  • Cada aspecto deve ser adaptado para o seu corpo e mente
  • Uso de equipamentos e métodos de treinamento criativos
  • Expansão contínua de suas habilidades
  • A habilidade do corpo e da mente é infinita
  • Sensibilidade: sinta-se dissolver no combate
  • A importância de fluir
  • Você luta do modo como treina

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientais desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, além da cultura oriental e artes marciais.

site: www.laoshan.com.br

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