ueshibaUltimamente muito se tem comentado sobre a eficiência do Aikidô em combate. Da mesma forma, como sempre ocorre quando um assunto está em voga, começam a surgir teorias e estórias equivocadas à respeito, pronunciadas por pessoas às vezes muito respeitadas no meio. A finalidade dessa matéria é esclarecer alguns pontos sobre o Aikidô como sistema marcial e o modo como a sua filosofia, estruturada por O-Sensei Morihei Ueshiba, toma parte no combate.

Surge Morihei Ueshibamorihei ueshiba

Não se pode falar sobre aspectos e características do Aikidô sem falar sobre as experiências e estudos de seu fundador. Mestre Ueshiba, descendente de samurais, começou desde moço a estudar as artes marciais e as filosofias a elas associadas. Foi aluno e atingiu o grau de instrutor em diversos estilos de Jujutsu e de armas, tendo obtido um dos graus máximos em Kenjutsu da tradicional e milenar escola Kashima Shinto Ryu. Versado nos estudos clássicos, Mestre Ueshiba estudou com profundidade todas as filosofias pertinentes da época, do Budismo Shingon ao Shintoísmo, tendo inclusive residido em templos. Um dos mais destacados discípulos do Grande Mestre Sokaku Takeda, líder do Daito-Ryu Aikijujutsu, Mestre Ueshiba acabou por desenvolver seus próprios estudos que culminaram na criação e no aperfeiçoamento da arte do Aikidô.

 

A Filosofia do Aikidô

Esta arte marcial japonesa se fundamenta em diversos princípios filosóficos, ligados principalmente ao Shintoísmo. Como nosso espaço é pequeno, nos concentraremos em alguns pontos necessários ao desenvolvimento de nosso tema: a eficiência em combate.

Mestre Ueshiba, quando atingiu a iluminação, descobriu que a harmonia com o Universo era a finalidade principal do Budô (artes marciais). Atingida a harmonia universal, o praticante não mais teria motivos para lutar, pois o egoísmo, a inveja e a raiva seriam coisas ultrapassadas. Todos os seres se tornam irmãos e uma grande compaixão toma conta do praticante. Embora poucos consigam atingir esse último estágio, a filosofia e todas as técnicas do Aikidô procuram levar o praticante a essa meta. Podemos afirmar, sem medo de errar, que a finalidade última da arte do Aikidô seja a de conseguir a harmonização com o Universo, partindo depois para auxiliar os demais praticantes de forma solidária a alcançar o mesmo estado.

O Aiki em Combate

Como o próprio nome indica, o princípio básico do Aikidô é a harmonia do Ki (AIKI, em japonês). Através dessa harmonia, tanto o praticante quanto seu oponente compartilham o Ki, mesmo à distância. A premissa básica do Aikidô é que se possa expandir o próprio Ki até que este englobe o Ki do oponente e se funda com ele. À partir desse momento, ambos passam a agir energéticamente como se fossem apenas um. Podemos observar isso no momento após o oponente haver sido arremessado: o praticante mantêm-se ainda em guarda, olhando-o diretamente e mantendo o vínculo energético até que se certifique de que ele não possui mais intenções agressivas. Com o Ki vinculado dessa maneira, o que o oponente pensa em executar é pressentido pelo praticante e suas ações passam a ser conhecidas antes mesmo que sejam executadas.

Outra característica dessa atuação é que podemos também assumir o controle energético do oponente, desviando seu Ki para outra direção ou mesmo fazendo sua própria energia se voltar contra ele. Esse domínio energético é reforçado e utilizado juntamente com os movimentos circulares do Aikidô, formando um conjunto único muito difícil de ser vencido em um combate.

Seguindo o Caminho Marcial: Primeiro Problema

Como vimos o principal objetivo do Aikidô é o desenvolvimento do ser humano e não o combate. Podemos afirmar que o combate possui um papel secundário no Aikidô, servindo apenas para exercitar as características e técnicas do Aiki. Mesmo assim, o Aikidô é uma arte marcial (BUDÔ) e assim deve ser praticada. O primeiro problema dos aikidokas brasileiros é o vício em não opor resistência ao parceiro de treino. Uma vez seguro pelo companheiro, o aikidoka cai facilmente, chegando a literalmente se jogar ao chão. Isso é um erro grave. Percebi em muitos seminários internacionais como os Mestres japoneses ralhavam com os praticantes por se deixar jogar e em como alguns brasileiros, mesmo de graus avançados, não conseguiam executar as técnicas quando o Mestre convidado lhes segurava firmemente e opunha uma certa resistência. Como o Aikidô é uma arte marcial, ele deve ser praticado de forma firme, como se o praticante se preparasse para um combate real. Mas firme não significa duro: o oponente deve se submeter e cair quando perceber que seu companheiro conseguiu desequilibrá-lo. Dessa forma ele aprenderá a ceder no momento adequado, uma característica importante da filosofia do Aikidô, e seu companheiro aprenderá a correta utilização da técnica.

Seguindo o Caminho Marcial: Segundo Problema

Outro problema muito comum na prática do Aikidô é justamente o oposto do anterior: fazer força demais. Existem muitos praticantes, inclusive líderes de academia, que executam as técnicas fazendo um grande esforço físico, embora procurem não demonstrar. É o “falso Ki”. As técnicas de Aikidô, quando bem executadas, saem naturalmente e não precisam ser “forçadas”. Misticismos à parte, a força da energia interior é uma realidade palpável, que pode ser experimentada e aperfeiçoada por qualquer pessoa e a busca pelo Ki é parte integrante do caminho do Aikidô.

Seguindo o Caminho Marcial: Terceiro Problema

Existem diversos professores que estão alardeando que seu Aikidô é “mais marcial” ou “mais forte” que os outros. Isso é muito preocupante. Como a função primordial do Aikidô é fazer seus praticantes se desenvolverem mental e espiritualmente através da harmonia com o Universo, se o interesse principal for desviado para a defesa pessoal, a meta se perderá. Com a perda da meta principal se perderá o trabalho e esforço de toda uma vida de O-Sensei Ueshiba! Essa arte maravilhosa não possui competições justamente porque elas não se enquadram em sua filosofia. O que esses professores estão fazendo é justamente impor um tipo de competição na qual o estilo deles é “melhor” do que o de outro. Isso revela, realmente, que eles estão muito longe de atingirem a correta compreensão de uma filosofia tão complexa quanto o Aikidô.

Solução: Praticar Aikidô!

Não pense que sou contra o lado marcial do Aikidô. Pelo contrário. O combate e a defesa pessoal são muito importantes na prática dessa arte marcial. Mas a eficiência em combate só virá quando o praticante desenvolver adequadamente todos os princípios deixados por O-Sensei. Se alguém desejar a tão almejada “eficiência” em combate apenas usando técnicas marciais, deveria procurar outra arte, como o Aikijujutsu. Esta arte, sim, visa prioritariamente a defesa pessoal. Toda a sua filosofia e técnicas possuem como meta o combate real. É necessário que se repita: a meta do Aikidô é a harmonia entre as pessoas e do praticante com o Universo. É uma arte eficiente em combate? SIM, desde que sejam seguidos os seus princípios.

Com a correta prática do Aikidô, tendo em vista que as artes marciais devem ser executadas com kokoro (coração), o praticante pode almejar horizontes muito superiores, tendo como mero efeito colateral um sensacional meio de autodefesa.

 

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientais desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, além da cultura oriental e artes marciais.

site: www.laoshan.com.br

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