Este artigo pretende discutir os problemas de crença e filosofia que hoje permeiam o Feng Shui.

O problema com crenças é que se deve acreditar nelas ou a coisa não funciona. O caso do Ba-guá de proteção é notório. Como gráfico radiestésico, você pode ou não acreditar nele, mas ele vai funcionar da mesma forma. É o caso da Acupuntura, que não depende da crença dos pacientes (eu mesmo já tive pacientes descrentes que tiveram ótimos resultados). Da mesma forma, o Feng Shui é baseado em leis da natureza, que estão aí quer você acredite ou não. Mas para funcionar devemos conhecer essas leis e saber manipular essa forças naturais corretamente.

Um conceito bastante mal-interpetado é a "intenção", ou Yi em chinês. A intenção é uma das peças-chave nas artes taoístas, pois é fundamental para se efetuar uma série de técnicas de manipulação de energia (Chi), como o Chi Kung, a Acupuntura e o Tai Chi Chuan. Os chineses costuma dizer que "onde a mente vai, o Chi acompanha". A intenção, dessa forma, é uma vontade muito forte de que o Chi faça alguma coisa ou vá para algum lugar de nosso corpo. Essa é a base de movimentação consciente de energia. Mas isso é válido para o interior do corpo humano. Quando você projeta uma intenção no ambiente externo, você precisa de muito mais força para ter resultados muito pequenos. Ou seja, manipular energias no meio ambiente não é para qualquer um, mas para pessoas muito bem treinadas ou que são especiais por narureza.

O Feng Shui moderno pleiteia a condição de manipular o ambiente externo através da intenção. Isso não se aprende em um curso de final de semana, com certeza! Acredito que isso possa ser feito, pois rezadeiras e benzedeiras são comuns em nossa cultura. Mas apenas algumas pessoas conseguem esse tipo de coisa. A nós outros cabe utilizar sabiamente as forças naturais e direcioná-las para os pontos que desejamos. Para isso devemos conhecer sua estrutura e modo de atuação, não bastando ter "fé".

Se eu quiser que o Chi vá para algum lugar devo criar condições para que isto ocorra. Cito em meus cursos sempre a analogia com o ralo. Quando se está fazendo um piso e queremos que a água escorra por um ralo, fazemos o ralo mais baixo que o piso em volta, criando uma "caída", como se diz. Deste modo toda a água jogada no piso escoa diretamente para o ralo (coisa que raramente acontece na prática…). Então, o princípo de manipulação do Chi em um imóvel é exatamente esse: criam-se condições para que essa energia flua por onde desejamos e da maneira como desejamos.

Mas o Feng Shui moderno não pensa assim. Seus consultores e professores pregam que o Chi pode ser "atraído" ou "gerado" por alguns elementos, sem qualquer outro tipo de explicação. Objetos os mais diversos "atraem" o Chi ou são "fontes de energia". Não precisa haver explicações, porque o conceito básico é "acreditar". Se isso fosse coerente dentro de um tipo de pensamento filosófico, não haveria problema. Mas ocorre que, pelo menos aqui no Brasil, a criatividade natural de nosso povo está fazendo a coisa sair de controle. Atualmente vale tudo no Feng Shui. Relações entre objetos são criadas todo dia, com base nas mais absurdas analogias. Por exemplo: se o cachorro é símbolo de fidelidade, então dois cachorros de porcelana representam a fidelidade conjugal e ajudam no relacionamento. De onde isso é tirado? Da imaginação do consultor. E você paga a conta.

No começo os "fengshuístas" modernos utilizavam a Seita do Chapéu Preto, de Thomas Lin Yun, de modo ortodoxo, ou seja, da maneira como esse senhor criou a coisa. Mas com o passar do tempo, o pessoal daqui começou a inventar e desenvolver suas próprias técnicas, muitas vezes deturpando até mesmo a escola original. Afinal, o brasileiro detesta seguir regras, não é mesmo? Por exemplo o direcionamento do tal Ba-guá pelo Norte magnético. Ora, a Seita do Chapéu Preto preconiza que a porta de entrada deve servir de indicação para o Ba-guá e não a bússola. Ocorre que, na vontade de tornar sua técnica mais concreta, muitos "fengshuístas" começaram a adotar alguns conceitos das escolas tradicionais. Essas escolas quase sempre se utilizam de bússola, simplesmente porque o Feng Shui é uma ciência que lida com o conceito espacial, por isto o imóvel deve ser corretamente localizado no espaço. Mas usar a indicação magnética no Chapéu Preto é uma mistura incorreta.

As criações não param por aí. Já se colocam anjos nos "cantos" do Ba-guá, para "ativar as energias". Estou vendo a hora em que santos católicos e orixás serão chamados a defender seus "cantinhos"… Isso tudo é muito bonito mas não é Feng Shui, infelizmente. Todo o trabalho desenvolvido por esta arte taoísta chinesa, mesmo que empregue astrologia e talismãs, possui uma fundamentação lógica dentro de sua filosofia. Podemos explicar o porquê de tudo em Feng Shui tradicional, porque temos uma filosofia de base que nos provê de recursos lógicos e filosóficos para tal empreendimento. O Feng Shui de "intenção" não possui essa bagagem milenar. Por mais que digam que é centenário e tal e coisa, o Feng Shui moderno tem cerca de 20 anos e não possui fundamentação filosófica. Algo é feito em virtude de se acreditar ou não, por analogias ingênuas ou mistura de culturas. E tudo é empacotado e vendido com a etiqueta "Feng Shui".

Mesmo o pobre I Ching é citado de boca cheia por um monte de gente que nunca estudou essa obra fundamental a fundo. Resultado: cometem os erros mais grosseiros possíveis, como uma autora brasileira de livros de Feng Shui que confundiu os trigramas do ba-guá em um de seus livros. Se tivesse estudado esta ciência, bastaria bater os olhos nos trigramas para verificar seu erro. Ou ainda os consultores "experts" que não sabem que existe mais de um Ba-guá para se pendurar na porta…

Vejam, não se trata de uma simples crítica, mas de um alerta. Estão perdendo o controle desta técnica e confundindo as pessoas que buscam harmonizar a sua casa. Feng Shui não é decoração de interiores, nem uma salada eclética de culturas e nem um sistema de crenças e de fé. Feng Shui é uma ciência chinesa multi-milenar com base na filosofia taoísta.

Infelizmente sei que vou ofender muita gente, e lamento profundamente. Estou sempre à disposição para debater conceitos e fundamentos. Se tiverem algum, podem me procurar. É muito simples. Respeito o Feng Shui moderno como respeito qualquer crença pessoal ou religião. Porque no frigir dos ovos a coisa é essa: um sistema de crenças. E o Feng Shui desenvolvido pelos chineses não é isso.

Como diz o ditado: "De boa intenção o inferno está cheio".

 

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientals desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, além da cultura oriental e artes marciais.

site: www.laoshan.com.br 

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