filosofiaQuando se fala sobre filosofia chinesa imediatamente nos vem à cabeça o Budismo, Taoísmo ou Confucionismo. Isso se deve à importância e popularidade destas que são, sem dúvida, as principais escolas do pensamento filosófico chinês. Entretanto, a variedade de escolas filosóficas na China é tão grande e diversificada quanto são as escolas de artes marciais. Houve um período da história chinesa conhecida como Período dos Reinos Combatentes (475-221 a.C.), que acabou apelidado também como “Época das 100 Escolas Filosóficas”, tamanha a sua quantidade.

O que gostaria de abordar de modo bastante superficial nesta matéria seria um panorama geral de algumas escolas importantes e geralmente pouco conhecidas mas que ajudaram a moldar o pensamento chinês ao longo dos milênios. Oportunamente poderemos retornar a estas escolas e outras ainda, de forma mais pormenorizada.

Escola do Yin e Yang

Uma das escolas mais antigas, provavelmente remonta à influência dos Xamãs primitivos. Sua base principal de pensamento gira ao redor das polaridades universais: Yang e Yin (claro e escuro, quente e frio, prazeroso e desagradável, etc..). Este conceito primitivo realmente parece o mais óbvio, em virtude do dia e da noite, calor e frio e outras sensações facilmente reconhecíveis. Essa escola é a precursora do I Ching e do Taoísmo, tendo lançado as bases do Livro das Mutações. Alguns autores colocam esta como sendo a escola de origem do I Ching, no entanto devo discordar em virtude da elevada complexidade do livro, que transcende em muito o conceito de Yin e Yang. Mas parece bem claro que os trigramas, que são peças fundamentais desta obra, tenham nascido das observações desta escola. Seus ensinamentos ainda se mantêm vivos nos dias atuais, como por exemplo na Macrobiótica, que utiliza largamente o conceito de Yin/Yang.

Taoísmo

Uma das mais antigas e conhecidas escolas de filosofia chinesa, seus conceitos fazem parte da vida de milhões de pessoas através do Feng Shui, Acupuntura, Tai Chi Chuan e outras artes taoístas. Uma conclusão errrônea que muitas vezes se chega é de que o Taoísmo foi fundado por Lao-Tsé (séc. IV a.C.). Na verdade, seus ensinamentos se basearam em conceitos já existentes e formulados há pelo menos 3500 anos. O próprio I Ching já existia em sua forma atual na época de Lao-Tsé, o que demonstra a antigüidade desta obra e sua importância na elaboração do Taoísmo. A participação do Velho Sábio, juntamente com Chuang-Tsé, Lieh-Tsé e outros filósofos foi o de tornar os conceitos árduos do taoísmo mais acessíveis às pessoas em geral. Esta é a missão do Tao-Te-Ching, obra escrita por ele. Os conceitos básicos do Taoísmo (Yin/Yang, Chi, I Ching, 5 “Elementos”, Pa Kua, etc…) são bastante conhecidos e não creio que possam ser resumidos neste pequeno espaço. O Taoísmo prega basicamente a harmonia com a Natureza e o Universo, afirmando que os seres humanos são unos com a Criação e que tudo está em permanente mudança.

Budismo Mahaiana

Após a morte de Buda, o Budismo se dividiu em dois ramos: o Hinayana (ou Theravada), chamado também de “Pequeno Veículo”, e o Mahaiana ou “Grande Veículo”. O primeiro pregava que para se atingir a iluminação precisava-se de dedicação total e absoluta aos preceitos budistas, que acabou originando os mosteiros nos quais viviam reclusos os adeptos desta senda. Os monges seriam os únicos que poderiam atingir a iluminação. Esta vertente foi bastante difundida no Ceilão, Tailândia, Nepal e Butão.

O Mahaiana preconiza que todos possuem a natureza búdica de forma intrínseca e podem buscar a iluminação. A meta suprema é a obtenção da iluminação para todos os seres. Este ramo foi bastante difundido no Tibete, China, Japão e Coréia.

Introduzido na China por volta do século II d.C., o Budismo Mahaiana ganhou muitos adeptos rapidamente. Mas contaminado pela riqueza cultural chinesa, originou diversas vertentes importantes como o Ch’an (depois Zen) e o Ch’en Yen (origem das escolas japonesas Tendai e Shingon), terminando por se tornar extinta em sua forma pura por volta do século X. O Mahaiana é a corrente que possui grande tolerância aos costumes de seus devotos, originando cerimônias, altares e divindades.

O cerne do Budismo é a pregação das Quatro Nobres Verdades (existência da dor, origem da dor, eliminação da dor e o caminho para a eliminação da dor) e o Óctuple Caminho, que conduz à eliminação da dor e do sofrimento (oito características corretas: intenção, visão, palavra, ação, modo de vida, esforço, mente e concentração)

Budismo Ch’an

Originado pelo monge indiano Bodhidharma (séc. VI d.C.), que viajou pela China pregando o Budismo até chegar em Shaolin. Neste templo, fundado 30 anos antes pelo monge Ba Tuo, ele meditou durante 9 anos e criou esta escola budista, que se tornou uma das mais importantes para as artes marciais. Com forte influência do Taoísmo, o Ch’an prega a importância da meditação e do esforço e a atenção total ao momento presente, além das doutrinas budistas Mahaianas. Apesar de ser mais conhecido em sua versão japonesa (Zen), o Ch’an possui várias diferenças deste último, que foi moldado segundo o pensamento japonês (mais metódico, objetivo, disciplinado e despojado). Infelizmente o estudo do Ch’an raramente é encontrado nos adeptos de artes marciais chinesas, particularmente daquelas nascidas em Shaolin. Com isso perde-se grande parte da riqueza cultural e mesmo técnica destas artes. O Ch’an ainda é muito praticado na China.

Budismo Ch’en Yen

Dentre as variadas formas de Budismo nascidas na Índia, a linha esotérica (Vajrayana) foi a última a se estabelecer. Fruto da união dos ensinamentos budistas com o Tantra e técnicas yôgues, o Budismo Esotérico se desenvolveu por volta do ano 400 de nossa era. Foi exportado para o Tibete onde exerceu decisiva influência no que foi depois chamado de Budismo Tibetano. Muita dessa influência se extendeu até a China, sendo ensinado por Vajrabodhi, monge indiano que se radicou no Leste da China por volta de 700 d.C. Ao contrário de seus antecessores, Vajrabodhi dominava bem a língua chinesa e suas traduções de sutras foram peças valiosas na afirmação do Budismo Esotérico na China (chamado de Ch’en Yen – “Palavra Verdadeira”). Com a invasão muçulmana na Índia no século XII, o Budismo, incluindo o ramo esotérico, desapareceu daquele país. Muitos de seus textos hoje existem apenas em traduções tibetanas e chinesas. O Budismo Esotérico penetrou no Japão principalmente através da Escola Shingon (“Ch’en Yen” em japonês) e da Escola Tendai (“T’ien Tai” em Chinês). [Veja matéria sobre o Budismo Esotérico Japonês em nossa edição nº 7].

Confucionismo

Filosofia nascida dos ensinamentos de K’ung Fu-Tzé (séc. IV a.C.), cujo nome foi transcrito para o latim como “Confucius” e depois para o português Confúcio. Renomado estudioso e erudito, Confúcio era grandemente fascinado pelos rituais e regras de moral e convivência em sociedade. Suas obras, transcritas por seus discípulos, possuem grande embasamento moral e mostram como a pessoa correta (chamado de Homem Superior) deve se portar nas mais diversas circunstâncias dentro da sociedade. Sua compilação de regras, regulamentos e rituais foi considerada oficial e seguida por diversas dinastias chinesas ao longo desses dois milênios e meio, e muito influenciaram as artes marciais: cerimônias tradicionais, respeito ao local de treino e aos seus colegas, tratamento de professores e colegas como membros da família (professor = Sifu (pai), colega mais antigo = Sihing (irmão-mais-velho), Mestre do professor = Sikung (avô) e assim por diante). Confúcio resgatou e comentou também os chamados Clássicos (Ching), em número de cinco e estudados por toda a Ásia, inclusive entre os Samurais. Todas as pessoas de cultura eram versadas nestas cinco obras: Livro de Documentos (Shu Ching), Livro das Mutações (I Ching), Anais da Primavera e Outono (Ch’un Ch’iu), Registro dos Rituais (Li Chi) e Clássico das Poesias (Shing Ching). Confúcio também utilizava as idéias de Yin/Yang e Tao, embora sua interpretação muitas vezes fosse diferente dos taoístas, gerando grande rivalidade e troca de textos irônicos (uma das grandes motivações dos debates filosóficos e da literatura chinesa por gerações). O pensamento confucionista foi o elo que manteve a China unida mesmo com as subidas e derrubadas das diversas dinastias.  

Escola das Leis (Legalista)

Esta escola na verdade é um conjunto de autores e obras diversas, destacando-se Siun-Tsé, autor de Han Fei Tsu, a principal obra desta escola. A grande influência do Legalismo (séc. VII a III a.C.) foi sobre a política chinesa, pregando a severidade das leis e sua inviolabilidade depois de promulgadas.. Estas também teriam caráter universal, podendo ser aplicadas ao povo ou a aristocracia. As faltas cometidas contra as leis tinham severas punições, sendo freqüentes a execução e a tortura. Essas novas teorias se apoiaram nos princípios inovadores do Moísmo. Shang Yang, um dos maiores representantes desta escola, foi um dos forjadores da legislação centralizadora do Estado Qin, cujo poder acabou por unificar a China pela primeira vez e estabelecer uma das mais importantes épocas da história chinesa.

Moísmo

Filosofia fundada por Mo-Ti (séc. III a.C.), forte opositora do confucionismo, prega a naturalidade universal ao contrário da moral histórica, defendendo a utilidade pública das ações ao invés de uma atitude petrificada por velhos rituais nem sempre úteis. O Moísmo pregava que uma atitude não seria necessariamente boa e correta apenas por ser antiga e tradicional, mas precisava ser revista constantemente pois a moral é algo vivo e mutável. Suas teorias políticas e estudos da linguagem foram pioneiras nestas áreas, posteriormente sendo desenvolvidas pela Escola dos Nomes (Neo-Moísmo). Suas discussões com os confucionistas elevou significativamente a análise filosófica de todas as demais escolas. Criticava muito a opulência e a vida supérflua (incluindo aí a música, na qual Mo-Ti não encontrava utilidade prática) e defendendo a simplicidade de vida

Neo-Moísmo (Escola Lógica ou Escola dos Nomes)

Uma corrente filosófica nascida pouco depois do Moísmo, caracterizou-se pela lógica e por paradoxos similares ao pensamento grego. Esta escola enfatizou e buscou argumentos lógicos para defender o Moísmo, sendo depois utilizada pelos Legalistas para defender suas próprias teorias.

Taoísmo Religioso

Nascido entre os séculos II e IV, se mostra mais supersticioso e propenso às divindades e aos rituais religiosos. Muitos acreditam ter sido uma forma de encarar o Budismo Mahaiana, que começava a entrar na China carregado de deidades e templos. Surgiram diversos deuses e deusas e a arte de confecção de talismãs e oráculos foi grandemente incentivada. Apesar de manterem características como o Tao, Yin/Yang e outros conceitos filosóficos taoístas, os adeptos da versão religiosa buscavam um poder divino que explicasse estes conceitos, em detrimento da especulação sobre as forças da natureza, utilizada pelo Taoísmo primitivo. Esse ramo ainda se encontra bastante difundido na China, muitas vezes misturadas a conceitos budistas.

Neo-Taoísmo

Não é uma classificação muito digna, mas o Neo-Taoismo é colocado muitas vezes como uma reaproximação com os ideais antigos do Taoismo. Essa reaproximação entretanto se faz sob influência do Budismo, Confucionismo e do próprio Taoísmo Religioso, que já haviam dominado a cultura chinesa. Essa época, entre 250 e 400 d.C., é a idade áurea da Alquimia Taoísta e da busca da Imortalidade, prolongado por outros estudiosos por mais centenas de anos.

Outras Escolas

Existem ainda uma infinidade de escolas agrupadas sob diversas denominações: Escola da Razão e Natureza, Escola da Mente, Escola Empírica, além de diversos filósofos e pensadores independentes.

Como podemos ver, uma cultura tão antiga e ancestral como a chinesa foi pródiga em escolas de pensamento filosófico. A maneira de pensar chinesa foi moldada em torno deste sincretismo ao mesmo tempo maravilhoso e assustador, em virtude da vastidão de suas fronteiras.

Corro o risco de me repetir, mas sempre afirmo que estudar artes marciais ou qualquer elemento da cultura chinesa e ao mesmo tempo descartar-se da sua filosofia é um grande equívoco que pode apenas atrasar o desenvolvimento do praticante.  

 

 

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientais desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, além da cultura oriental e artes marciais.

site: www.laoshan.com.br

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