jediorderA série de filmes de Guerra nas Estrelas foi um marco na história do cinema. Pela primeira vez se filmou uma saga épica de ficção científica, algo que perdura nas mentes e nos corações de duas gerações de espectadores (em parte graças à música sublime de John Willians). Agora, mais de vinte anos depois de sua estréia, chega aos nossos cinemas Episódio I – A Ameaça Fantasma*, o filme que conta como tudo começou – um prato cheio para as velhas e novas gerações. A base desse filme e dos anteriores é uma casta guerreira denominada “Jedi” (pronuncia-se “jedai”, ok?). Qualquer semelhança entre os Jedi e os Samurai NÃO é mera coincidência. Muitos de seus conceitos e qualidades são baseados na cultura oriental. Veja você mesmo.

* Artigo escrito originalmente em 1999

A natureza da Força

A Força é o elemento principal dos Jedi. É ela que conduz as atitudes dos cavaleiros e lhes confere enormes poderes. Conforme Obi-Wan Kenobi em Guerra nas Estrelas: “A Força é o que dá ao Jedi seu poder. É um campo de energia criado por todas as coisas vivas. Ela nos cerca e nos penetra e une toda a Galáxia”. Essa descrição já nos fornece uma prova de sua essência: Ki. Todos nós que trabalhamos com artes marciais conhecemos o poder do Ki. Com ele, os Jedi podem manipular objetos à distância (Telecinese), ler e influenciar mentes (Telepatia), pressentir perigos e se manter em harmonia com o Universo. Podemos observar a Força em uso nos filmes de demonstrações e aulas do Grande Mestre Morihei Ueshiba. Principalmente no final de sua vida, Mestre Ueshiba não precisava sequer tocar fisicamente em seus alunos para poder dominá-los e repelí-los. A importância e poder da Força foram claramente mencionados por Darth Vader em Guerra nas Estrelas: “A capacidade de destruir um planeta é insignificante perto do poder da Força”.

Filosofia

A filosofia dos Jedi é altamente esotérica e elevada. O Mestre Yoda afirma, em O Império Contra-Ataca: “Um Jedi usa a força para ter conhecimento e para defesa. Nunca para o ataque”. A utilização dos conhecimentos marciais apenas para a defesa é o mote central da grande maioria das artes marciais orientais. Mais tarde, no mesmo filme, quando Luke Skywalker duvida da Força, Yoda diz: “O tamanho não importa. Olhe para mim. Julga-me pelo meu tamanho? E não deve, mesmo, pois a Força é minha aliada. E uma poderosa aliada”. Este é um dos itens básicos da estratégia: nunca subestimar ninguém, não importa se é homem ou mulher, fraco ou forte, alto ou baixo, magro ou gordo. Principalmente quando se utiliza a energia interior, qualquer um pode ser poderoso. Mas a filosofia de vida dos Jedi com a Força é ainda mais profunda, como prossegue Yoda: “A vida a cria e a faz crescer. Sua energia nos cerca e nos une. Somos seres de luz, não de matéria. Precisa sentir a Força em sua volta, aqui, entre você e eu, na árvore, na pedra, em tudo”.

Treinamento Jedi

Obi-Wan Kenobi inicia o treinamento de Luke explicando o que é a Força e como funciona. Em seguida ele o adestra no manejo do sabre de luz, muito similar à espada Samurai. Luke é levado a não confiar no que vê, mas no que sente. Esse tipo de colocação é semelhante à dos orientais. Para eles quem deve manipular a espada é o espírito, não a mente, através do estado mental de quietude (zanchin). Na seqüência final de Guerra nas Estrelas, Luke deixa a tecnologia de lado e usa a sua percepção desenvolvida para disparar os torpedos que destroem a Estrela da Morte.

Quando Luke inicia seu treinamento com Yoda, este se ressente da teimosia e impaciência de seu aluno e de sua idade, muito avançada para os padrões Jedi de treinamento. As artes marciais também pregam o treinamento precoce como forma de desenvolver o verdadeiro guerreiro. E qual faixa branca não é descrente, impaciente e teimoso? Em meio a corridas com obstáculos, Yoda leva seu jovem aluno à uma determinada parte da floresta. Ali ele é deixado para que enfrente seus medos e temores, que assumem a forma de seu oponente, Darth Vader. Esse tipo de confronto mental é largamente utilizado pelos tibetanos no treinamento de seus discípulos e pelos japoneses do budismo esotérico Shingon, que denominam essa técnica de combates mentais como Dojutsu-Sempo.yoda dagobah

Morte Cerimonial

No primeiro filme da trilogia original, Obi-Wan Kenobi duela com Darth Vader num dos grandes momentos do filme. Ao ver que Luke está a salvo, ele se deixa atingir pelo sabre de luz de seu oponente. Ao invés de simplesmente morrer, o Jedi desaparece numa espécie de transmigração. Nos filmes subseqüentes, Obi-Wan aparece para seu pupilo numa forma astral. Esse modo de encarar a morte, como uma necessidade para um bem maior, é típico dos Samurai, os quais não se importavam em morrer à serviço, desde que os seus objetivos fossem atingidos. A morte, para um Jedi, longe de ser o fim da linha, é encarada como uma simples mudança de estado, filosofia compartilhada por muitas correntes filosóficas do Oriente.

O Lado Negro

A filosofia oriental apregoa a existência de duas polaridades complementares: o Yin e o Yang. Para os Jedi também a força possui dois lados: o claro e o escuro. Embora tenhamos propensão a considerar o lado escuro como o mal, devemos nos lembrar que isto depende de um referencial e não pode ser considerado como uma verdade absoluta. Na realidade todos nós temos ambos os lados em nosso próprio íntimo. Isso é colocado de maneira muito clara na saga de Guerra nas Estrelas: qualquer um, a qualquer momento, pode se voltar para o Lado Negro da Força. Segundo Yoda, o Lado Negro é mais fácil, por isso mais atrativo. Realmente, na vida real podemos observar que fazer as coisas de forma considerada não-correta pela sociedade não é tão difícil quanto seguir as regras. Roubar é mais fácil do que trabalhar. Enganar é mais fácil do que fazer um trabalho sério. Esse é o grande atrativo do Lado Negro (que está cada vez mais seguido, hoje em dia…). Mas da mesma forma como é fácil cair no Lado Negro, o retorno ao Lado Claro é muito penoso. Em O Retorno de Jedi, Luke consegue finalmente trazer seu pai, Anakin Skywalker, de volta para o Lado Claro apelando para os bons sentimentos que ele ainda guarda dentro de si. Dessa forma, ele deixa de ser Darth Vader e volta a ser Anakin, o Jedi. Isso é mostrado no final do filme, quando aparecem Obi-Wan, Yoda e Anakin em forma astral. Ele finalmente conseguiu seu lugar ao lado dos Jedi.

Um Filme, Uma Filosofia

Este breve estudo nos mostra a importância em se entrever pequenos detalhes nos filmes de modo geral. Às vezes produções criticadas como “apenas um monte de efeitos especiais” podem ter muito mais por trás delas. Nós podemos aprender muito com quase tudo o que vivenciamos.

 

Gilberto Antônio Silva é jornalista, terapeuta e escritor. Estuda filosofias e culturas orientais desde 1977 e é autor de mais de uma dúzia de livros. É um dos maiores pesquisadores e divulgadores do Taoismo no Brasil, além da cultura oriental e artes marciais.

site: www.laoshan.com.br

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